O Morro dos Ventos Uivantes
O Morro dos Ventos Uivantes 87. Segundo Meg Harris Williams (“The Hieroglyphics of Catherine: Emily Brontë and the Musical Matrix”, 2008), a imagem das prímulas no mingau de Hareton sinaliza o início de um processo de regeneração e revitalização já inscrito na primeira caracterização do filho de Hindley (“Sem dúvida, boas qualidades perdidas em meio a um emaranhado de ervas daninhas cuja exuberância ultrapassava em muito o crescimento desordenado; prova, contudo, de um solo fértil, que bem poderia produzir colheitas abundantes, sob circunstâncias distintas e mais favoráveis”, ver p.222) e na transformação da postura arrogante de Catherine frente a ele, vazada por sua formação cultural. O papel da cultura como arma e insígnia de poder atravessa todo o romance – seja pelos maus-tratos de Hindley a Heathcliff, a quem é negada educação; seja pelo retorno de Heathcliff a Wuthering Heights como cavalheiro, cônscio da importância de uma aparência educada para seus planos de vingança; seja pelo tratamento que dá a Hareton, a quem priva de qualquer forma de ilustração, aprisionando-o em sua própria ignorância. No relacionamento entre Catherine e Hareton, percebe-se uma relação cultural diversa, que já se vislumbra na solução que a garota dá à perda de seus livros, “escritos em seu cérebro e impressos em seu coração”: a de trocas férteis e generosas, de todo estranhas ao conflito ideológico que serve de estopim à crise dos Earnshaw.