O pobre de direita
O pobre de direita No Brasil, o racismo nunca desapareceu — apenas trocou de máscara. A divisão histórica entre um Sul/Sudeste branco e o restante do país majoritariamente negro e mestiço criou as bases para um preconceito regional que esconde, mas mantém, a lógica da hierarquia racial. Com a proibição social do racismo explícito, a exclusão passou a ser justificada por outros critérios: “cultura de vagabundagem”, “preguiça do nordestino”, “falta de educação do pobre do Norte”. Trata-se de um racismo disfarçado, mas operante, que continua classificando pessoas com base em origens geográficas que coincidem com a cor da pele.
A figura do “branco pobre” do Sul e Sudeste – especialmente de regiões colonizadas por imigrantes europeus – tornou-se a base simbólica da extrema direita. Ele se vê como superior ao nordestino e ao negro, mesmo estando igualmente empobrecido. Essa ilusão de superioridade moral o leva a se identificar com as elites e a rejeitar qualquer política de reparação ou solidariedade social. Ele se sente “humilhado” por ser tratado como igual aos que considera inferiores. O racismo regional oferece, então, um sentido de pertencimento e dignidade artificial, que pode ser mobilizado politicamente contra seus próprios interesses. É a vingança do bastardo que, ressentido, se alia ao senhor.
