O Mandarim

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VI

Já a tarde declinava, e o sol descia vermelho como um escudo de metal candente, quando chegámos a Tien-Hó.

As muralhas negras da villa erguem-se, do lado do sul, ao pé d'uma torrente que ruge entre rochas: para o nascente, a planicie livida e poeirenta estende-se até a um grupo escuro de collinas onde branqueja um vasto edificio—que é uma Missão Catholica. E para além, para o extremo norte são as eternas montanhas rôxas da Mongolia, suspensas sempre no ar como nuvens.

Alojámo-nos n'um barracão fetido, intitulado Estalagem da Consolação terrestre. Foi-me reservado o quarto nobre, que abria sobre uma galeria fixada em estacas; era ornado estranhamente de dragões de papel recortado, suspensos por cordeis do travejamento do tecto; á menor aragem aquella legião de monstros fabulosos oscillava em cadencia, com um rumor secco de folhagem, como tomada de vida sobrenatural e grotesca.

Antes que escurecesse fui vêr com Sá-tó a villa: mas bem depressa fugi ao fedor abominavel das viellas: tudo se me afigurou ser negro—os casebres, o chão barrento, os enxurros, os cães famintos, a populaça abjecta... Recolhi ao albergue—onde arreeiros mongoes e crianças piolhosas me miravam com assombro.

—Toda esta gente me parece suspeita, Sá-tó—disse eu, franzindo a testa.


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