O Mandarim
O Mandarim No entanto procurava distrahir-me. E como as circumvoluções do meu cerebro me não habilitavam a compôr odes, á maneira de tantos outros ao meu lado que se desforravam assim do tedio da profissão; como o meu ordenado, paga a casa e o tabaco, me não permittia um vicio—tinha tomado o habito discreto de comprar na feira da Ladra antigos volumes desirmanados, e á noite, no meu quarto, repastava-me d'essas leituras curiosas. Eram sempre obras de titulos ponderosos: Galera da Innocencia, Espelho Milagroso, Tristeza dos Mal Desherdados... O typo venerando, o papel amarellado com picadas de traça, a grave encadernação freiratica, a fitinha verde marcando a pagina—encantavam-me! Depois, aquelles dizeres ingenuos em letra gorda davam uma pacificação a todo o meu sêr, sensação comparavel á paz penetrante d'uma velha cêrca de mosteiro, na quebrada d'um valle, por um fim suave de tarde, ouvindo o correr d'agua triste...
Uma noite, ha annos, eu começára a lêr, n'um d'esses in-folios vetustos, um capitulo intitulado Brecha das Almas; e ia cahindo n'uma somnolencia grata, quando este periodo singular se me destacou do tom neutro e apagado da pagina, com o relevo d'uma medalha d'ouro nova brilhando sobre um tapete escuro: copío textualmente:
