A Morte de Ivan Ilitch
A Morte de Ivan Ilitch A esposa censurava-o por todos os percalços ocorridos neste novo local de residência. A maioria dos assuntos de conversa entre marido e mulher, sobretudo a educação dos filhos, levava a questões sobre as quais havia lembrança de dissensões, e a cada momento podiam deflagrar-se brigas. Sobravam apenas uns raros períodos de paixão, que às vezes assaltavam os esposos, mas que duravam pouco. Eram ilhotas, às quais eles atracavam por algum tempo, mas depois novamente se lançavam ao mar da hostilidade oculta, que se manifestava no afastamento entre eles. Esse afastamento poderia magoar Ivan Ilitch, se ele não julgasse que tudo devia ser realmente assim, mas ele já considerava esta situação não só normal com também o objetivo da sua atuação na família. O seu objetivo consistia em livrar-se cada vez mais dessas contrariedades e dar-lhes um caráter de inocuidade e decência; e alcançava-o passando cada vez menos tempo com a família, e, quando não conseguia evitá-lo, procurava garantir a sua situação com a presença de pessoas estranhas. Mas o principal era o fato de existir a sua vida de funcionário. Todo o interesse da existência concentrou-se para ele no mundo judiciário. E este interesse absorvia-o. A consciência do seu poderio, da possibilidade de aniquilar qualquer pessoa, a imponência, mesmo exterior, ao entrar no tribunal e nas entrevistas com os subalternos, o seu êxito diante dos superiores e dos que lhe eram subordinados e, sobretudo, a sua mestria em conduzir os casos criminais, que ele sentia, tudo isto alegrava-o e enchia-lhe a existência, a par das conversas com os amigos, os jantares e o uíste. De modo que, em geral, a vida de Ivan Ilitch continuava a desenvolver-se do modo que ele julgava adequado: agradável e decentemente.