A Morte de Ivan Ilitch
A Morte de Ivan Ilitch Assim se passou um mês, outro. Antes do Ano Novo, o cunhado dele chegou à cidade e instalou-se em sua casa. Ivan Ilitch fora ao tribunal. Prascóvia Fiódorovna estava fazendo compras. Entrando no seu escritório, encontrou ali o cunhado, um tipo sanguíneo, vendendo saúde, que desfazia sozinho a mala. Ouvindo os passos de Ivan Ilitch, ele ergueu a cabeça e olhou-o por um segundo em silêncio. Este olhar desvendou tudo para Ivan Ilitch. O cunhado abriu a boca para soltar um “ah”, mas conteve-se. Este movimento confirmou tudo.
— Então, eu estou diferente?
— Sim... há uma diferença.
E por mais que Ivan Ilitch procurasse induzir depois o cunhado a uma conversa sobre a sua aparência, o outro permanecia calado. Chegou Prascóvia Fiódorovna, o cunhado foi vê-la. Ivan Ilitch passou a chave na porta e ficou olhando-se no espelho: de frente, depois de lado. Apanhou o seu retrato com a mulher e comparou-o com o que via no espelho. Era enorme a mudança. Depois, desnudou os braços até o cotovelo, olhou, desceu as mangas, sentou-se numa otomana e ficou mais negro que a noite.