O Morro dos Ventos Uivantes
O Morro dos Ventos Uivantes – Perdão – respondi –, a senhora, minha cara amiga, é uma ótima prova contra essa afirmação. À exceção de uns poucos provincianismos sem maior importância, a senhora não tem qualquer marca do modo de agir que me habituei a considerar peculiar à sua classe. Tenho certeza de que a senhora passou muito mais tempo pensando do que a maior parte dos criados. Sentiu-se compelida a cultivar suas faculdades de reflexão por não ter ocasiões de desperdiçar a vida com ninharias.
A sra. Dean riu.
– Sem dúvida me considero uma pessoa estável e sensata – disse ela –, mas não exatamente por viver entre as montanhas e ver sempre os mesmos rostos e os mesmos acontecimentos ano após ano. Sempre vivi na mais estrita disciplina, o que me deu sabedoria, e li mais do que o senhor imagina, sr. Lockwood. Não há um único livro nesta biblioteca44 que eu não tenha lido, e do qual não tenha também tirado algo, a menos que esteja em grego ou latim, ou então em francês... e sei distinguir um idioma do outro, o que é o máximo que se pode esperar da filha de um homem pobre. Porém, se devo continuar contando minha história nos menores detalhes, é melhor não perder tempo. E em vez de dar um pulo de três anos, vou apenas passar ao verão seguinte: o verão de 1778. Ou seja, há quase vinte e três anos.